Após bater varias vezes o martelo sobre a mesa, o Meritíssimo juiz da comarca da cidade de Albuquerque, Clemente Soares Sobrinho se pronuncia.
_Silencio, por favor... Silencio, por favor... Vamos dar inicio a este julgamento.
Deu aquele olhar panorâmico habitual a todos os presentes do auditório e mexeu nos papeis sobre a bancada e começou o julgamento mais filosófico que se tem noticia na historia.
_Ao refletir sobre o amor. Senhores e senhoras, presentes. Descobri que é quase impossível escrever deste amor, que é demagogo, é egoísta e possessivo. Parece-me que as palavras mudaram de rumo ao longo dos tempos, é claro que falo dos termos técnicos da palavra obviamente bem escrita.
Pegou o copo de água sobre a bancada, deu um pequeno gole e continuou.
_Senhores e senhoras presentes. Os cidadãos comuns, os promotores, os advogados, as testemunhas e os jurados. Peço profundamente que analisem tudo que for dito a respeito dos laudos do processo do réu, senhor Adamastor Alves para que possam tirar justas conclusões.
O juiz fez uma breve pausa focando seus olhos para o réu, em seguida perguntou ao mesmo.
_Senhor Adamastor Alves foi o senhor o autor dos disparos contra a senhora Doralice Castro Alves e ocasionou a morte da mesma?
Enquanto respondia as lagrimas desceram pelas pálpebras, atravessando o rosto e sumiu pelo colarinho da camisa mostarda de casimira que o réu trajava.
_Sim. Eu a matei senhor juiz.
O juiz observando o réu sobre as lentes dos óculos de leitura que usava deu seqüência à bateria de perguntas.
_Qual motivo que levou o senhor atirar em sua esposa?
_Foi tudo pelo amor extremamente forte que sinto por ela.
O meritíssimo juiz passando uma das mãos sobre vasta barba grisalha que cobria toda face alva, seqüência gastando seu nobre e vasto vocabulário, e pergunta ao réu.
_Senhor Adamastor me responda. Como o senhor irá amá-la, sendo que sua esposa está morta?
Adamastor omitiu a resposta, abaixou a cabeça, mas não conseguiu segurar os soluços do choro reprimido.
O juiz comovido com a extensão do sacrilégio que a mente insana de Adamastor o submeteu e filosofou para os presentes do plenário.
_O amor não é soberania, nem supremacia, nem exclusividade. O amor pode ser fragrância ou feromonio se assim quiser. O amor não pode ser desejo porque desejo é exclusivista, é egoísta.
O meritíssimo juiz fez uma pausa, tomou mais um gole de água e indagou sobre o tema mal entendido por vários presentes que estavam ali.
_De que maneira era esse amor, que o senhor sentia pela sua esposa? Responda-me seu Adamastor.
Adamastor levantou rapidamente sua cabeça, olhou para o juiz e abaixou novamente antes de responder.
_Eu sentia aquele cheiro bom em Doralice, me dava uma vontade forte de estar do lado dela. Também me matava de angustia o medo de perdê-la para sempre.
O juiz continua usando em vão seu índice convencional de perguntas como que brincando com as palavras num circo de tristeza.
_Se o senhor tinha tanto medo de perdê-la para sempre, porque então fez esta atrocidade com sua mulher?
Adamastor enxugou as lagrimas que desciam sobre a face, com as duas mãos que estavam algemadas e murmurou.
_Porque ela destruiu todos os meus sonhos, simplesmente por algumas noites de delírio e devaneio. Eu sonhava com os nossos filhos que iríamos ter, correndo pelos corredores da casa que estou construindo; sonhava com eles brincando no quintal, ate projetei uma gangorra ao lado do muro próximo ao caramanchão, havia também escolhido o galho do abacateiro que amarraria as cordas do balanço.
Mais uma vez o silencio de Adamastor ecoou no plenário em meio ao murmúrio dos presentes que estavam no julgamento. Mais uma vez o juiz proliferou sua filosofia sobre o genuíno amor.
_O amor pode ser sonho porque está na alma e na inconsciência, pois ela não é racional e o racional é curioso e a curiosidade é incerta, e onde há incerteza não reside o amor. O amor que declamamos não é o amor com o qual nascemos, o amor com o qual operamos é o mesmo amor com o qual fomos fecundados.
De repente se postou de pé o advogado de defesa e pediu licença ao meritíssimo para fazer direito de seu cliente alguém para defendê-lo.
_Senhor meritíssimo, e jurados presentes. Quero dizer que induzidamente, meu cliente foi torturado emocionalmente pela esposa antes de cometer este erro brutal. Há mais de quatro anos sua esposa observava o vizinho pela janela do seu quarto. E não se incomodava que seu Adamastor a flagrasse desta traição psicológica. Há quatro anos, senhores e senhoras! Há quatro anos! A esposa estava torturando meu cliente.
Do lado direito da bancado do seu juiz o advogado de acusação se colocou de pé rapidamente e pediu o direito de falar e o juiz o autorizou de prontidão.
_Senhores e senhoras. Quero deixar bem evidente que não há nenhuma prova de adultério, sendo que apenas era um desejo virtual da vitima. Eu pergunto a todos presentes neste plenário. Existe algum pecado achar uma pessoa bela e atraente? Por este ato tão sublime, alguém se acha no direito de tirar a vida de alguém que apenas observa uma pessoa?
Neste momento todos resolveram falar ao mesmo tempo o que fez o meritíssimo bater seu martelo varias vezes e dizer.
_Silencio, por favor. Silencio por favor.
Aguardou uns instantes para que o falatório chegasse ao fim e depois prosseguiu com suas sabias palavras.
_O amor não é flerte porque flerte é imagem. E imagem é matéria ou corpo. O corpo não é essência! O amor não pode ser projetado ou dissipado em palavras, porque o amor é pura ação instintiva e as palavras são desejos do racional. O racional também é qualitativo e quantitativo. O amor pode ser trabalho se o trabalho for dom, mas se o trabalho for induzido provocará conflitos, onde há conflitos não há paz.
Novamente o advogado de defesa pediu licença e se expôs de maneira pausada ao falar para o publico presente no plenário completamente lotado.
_Como disse um certo sábio do passado: (Penso, logo existo). O simples fato, mas complexo de pensar, fez com que descobríssemos que o maior problema da humanidade ao longo da historia: seja a falta de impressão, expressão, coerência e inteligência do interior, da alma, do ego como se diz em psicologia. Vou tentar ser mais claro possível. Penso que: quando o interior é agredido ou quando nascemos com defeitos genéticos, erramos em nosso comportamento externo e muitas vezes nossas atitudes podem ser extremistas, como aconteceu com meu cliente. Por ultimo quero dizer que meu cliente foi agredido, aterrorizado no seu interior, na sua alma, no seu ego. Senhoras e senhores, jurados, meritíssimo não quero transparecer a vocês que meu cliente seja vitima, mas quero deixar bem evidente que também não é somente culpado por seu ato. Acredito que o conduziram, o induziram a este ato repugnante. Obrigado.
Mais uma vez o juiz foi obrigado a intervir sobre o falatório que se prosseguiu ao termino dos argumentos do advogado de defesa e seu martelo ressoou na sala do plenário. O advogado de acusação levantou pediu licença ao juiz, este lhe concedeu e com veemência nos argumentos vociferou.
_O amigo defensor quer que acreditemos que existam duas pessoas dentro de nós: uma que é agredida; e uma outra quem realmente agride. Uma pessoa que sonha e a outra que se realiza. Uma pessoa que é visível de corpo real, e uma outra pessoa da qual não enxergamos nem a cor dos seus cabelos. O amigo de trabalho e defensor quer que acreditemos, que se uma pessoa se queimar será a outra quem ira sofrer. Se uma pessoa for dura e resistente protegerá a outra oculta dentro de nós que é frágil e indefesa.
O advogado caminhou ate a tribuna dos jurados e fixando o olhar em um deles, concluiu, questionando.
_Como agora. Neste instante. Estou olhando para você ou supostamente para esta pessoa que existe dentro de você?
Olhou para um outro jurado desta vez uma mulher loira sentada na primeira fileira. Mais uma vez questionou.
_Eu estou falando e olhando para a senhorita ou para esta pessoa que o meu amigo de trabalho quer que acreditem existir dentro de você?
Enquanto voltava ao seu lugar reservado respirou profundamente, porem antes de sentar-se concluiu.
_Senhores e senhoras, jurados e senhor meritíssimo. Pergunto como leigo que sou deste profundo assunto: estamos aqui julgando substancialmente uma pessoa que exista ou algo que não possamos nunca aprisionar pelos seus atos? Obrigado.
Mais uma vez o juiz e seu martelo entraram em cena e mais uma vez conteve o murmúrio ecoante do plenário e filosofou
_O Amor pode ser duro como a pedra, quente como fogo, líquido como água, invisível como ar, o amor não pode ser aprisionado ou retido, transformado, porque não é conteúdo e conteúdo é substância, sendo que substâncias são matérias. O amor não é fraco nem forte, nem feio tão pouco bonito, porque ele simplesmente nos alimenta a alma. O amor é escravo da burrice racional de todo aquele, que se julga ser um ser humano. O ser humano é sensível como a poesia, e poesia é palavra, e palavra é literatura.
_Silencio, por favor... Silencio, por favor... Vamos dar inicio a este julgamento.
Deu aquele olhar panorâmico habitual a todos os presentes do auditório e mexeu nos papeis sobre a bancada e começou o julgamento mais filosófico que se tem noticia na historia.
_Ao refletir sobre o amor. Senhores e senhoras, presentes. Descobri que é quase impossível escrever deste amor, que é demagogo, é egoísta e possessivo. Parece-me que as palavras mudaram de rumo ao longo dos tempos, é claro que falo dos termos técnicos da palavra obviamente bem escrita.
Pegou o copo de água sobre a bancada, deu um pequeno gole e continuou.
_Senhores e senhoras presentes. Os cidadãos comuns, os promotores, os advogados, as testemunhas e os jurados. Peço profundamente que analisem tudo que for dito a respeito dos laudos do processo do réu, senhor Adamastor Alves para que possam tirar justas conclusões.
O juiz fez uma breve pausa focando seus olhos para o réu, em seguida perguntou ao mesmo.
_Senhor Adamastor Alves foi o senhor o autor dos disparos contra a senhora Doralice Castro Alves e ocasionou a morte da mesma?
Enquanto respondia as lagrimas desceram pelas pálpebras, atravessando o rosto e sumiu pelo colarinho da camisa mostarda de casimira que o réu trajava.
_Sim. Eu a matei senhor juiz.
O juiz observando o réu sobre as lentes dos óculos de leitura que usava deu seqüência à bateria de perguntas.
_Qual motivo que levou o senhor atirar em sua esposa?
_Foi tudo pelo amor extremamente forte que sinto por ela.
O meritíssimo juiz passando uma das mãos sobre vasta barba grisalha que cobria toda face alva, seqüência gastando seu nobre e vasto vocabulário, e pergunta ao réu.
_Senhor Adamastor me responda. Como o senhor irá amá-la, sendo que sua esposa está morta?
Adamastor omitiu a resposta, abaixou a cabeça, mas não conseguiu segurar os soluços do choro reprimido.
O juiz comovido com a extensão do sacrilégio que a mente insana de Adamastor o submeteu e filosofou para os presentes do plenário.
_O amor não é soberania, nem supremacia, nem exclusividade. O amor pode ser fragrância ou feromonio se assim quiser. O amor não pode ser desejo porque desejo é exclusivista, é egoísta.
O meritíssimo juiz fez uma pausa, tomou mais um gole de água e indagou sobre o tema mal entendido por vários presentes que estavam ali.
_De que maneira era esse amor, que o senhor sentia pela sua esposa? Responda-me seu Adamastor.
Adamastor levantou rapidamente sua cabeça, olhou para o juiz e abaixou novamente antes de responder.
_Eu sentia aquele cheiro bom em Doralice, me dava uma vontade forte de estar do lado dela. Também me matava de angustia o medo de perdê-la para sempre.
O juiz continua usando em vão seu índice convencional de perguntas como que brincando com as palavras num circo de tristeza.
_Se o senhor tinha tanto medo de perdê-la para sempre, porque então fez esta atrocidade com sua mulher?
Adamastor enxugou as lagrimas que desciam sobre a face, com as duas mãos que estavam algemadas e murmurou.
_Porque ela destruiu todos os meus sonhos, simplesmente por algumas noites de delírio e devaneio. Eu sonhava com os nossos filhos que iríamos ter, correndo pelos corredores da casa que estou construindo; sonhava com eles brincando no quintal, ate projetei uma gangorra ao lado do muro próximo ao caramanchão, havia também escolhido o galho do abacateiro que amarraria as cordas do balanço.
Mais uma vez o silencio de Adamastor ecoou no plenário em meio ao murmúrio dos presentes que estavam no julgamento. Mais uma vez o juiz proliferou sua filosofia sobre o genuíno amor.
_O amor pode ser sonho porque está na alma e na inconsciência, pois ela não é racional e o racional é curioso e a curiosidade é incerta, e onde há incerteza não reside o amor. O amor que declamamos não é o amor com o qual nascemos, o amor com o qual operamos é o mesmo amor com o qual fomos fecundados.
De repente se postou de pé o advogado de defesa e pediu licença ao meritíssimo para fazer direito de seu cliente alguém para defendê-lo.
_Senhor meritíssimo, e jurados presentes. Quero dizer que induzidamente, meu cliente foi torturado emocionalmente pela esposa antes de cometer este erro brutal. Há mais de quatro anos sua esposa observava o vizinho pela janela do seu quarto. E não se incomodava que seu Adamastor a flagrasse desta traição psicológica. Há quatro anos, senhores e senhoras! Há quatro anos! A esposa estava torturando meu cliente.
Do lado direito da bancado do seu juiz o advogado de acusação se colocou de pé rapidamente e pediu o direito de falar e o juiz o autorizou de prontidão.
_Senhores e senhoras. Quero deixar bem evidente que não há nenhuma prova de adultério, sendo que apenas era um desejo virtual da vitima. Eu pergunto a todos presentes neste plenário. Existe algum pecado achar uma pessoa bela e atraente? Por este ato tão sublime, alguém se acha no direito de tirar a vida de alguém que apenas observa uma pessoa?
Neste momento todos resolveram falar ao mesmo tempo o que fez o meritíssimo bater seu martelo varias vezes e dizer.
_Silencio, por favor. Silencio por favor.
Aguardou uns instantes para que o falatório chegasse ao fim e depois prosseguiu com suas sabias palavras.
_O amor não é flerte porque flerte é imagem. E imagem é matéria ou corpo. O corpo não é essência! O amor não pode ser projetado ou dissipado em palavras, porque o amor é pura ação instintiva e as palavras são desejos do racional. O racional também é qualitativo e quantitativo. O amor pode ser trabalho se o trabalho for dom, mas se o trabalho for induzido provocará conflitos, onde há conflitos não há paz.
Novamente o advogado de defesa pediu licença e se expôs de maneira pausada ao falar para o publico presente no plenário completamente lotado.
_Como disse um certo sábio do passado: (Penso, logo existo). O simples fato, mas complexo de pensar, fez com que descobríssemos que o maior problema da humanidade ao longo da historia: seja a falta de impressão, expressão, coerência e inteligência do interior, da alma, do ego como se diz em psicologia. Vou tentar ser mais claro possível. Penso que: quando o interior é agredido ou quando nascemos com defeitos genéticos, erramos em nosso comportamento externo e muitas vezes nossas atitudes podem ser extremistas, como aconteceu com meu cliente. Por ultimo quero dizer que meu cliente foi agredido, aterrorizado no seu interior, na sua alma, no seu ego. Senhoras e senhores, jurados, meritíssimo não quero transparecer a vocês que meu cliente seja vitima, mas quero deixar bem evidente que também não é somente culpado por seu ato. Acredito que o conduziram, o induziram a este ato repugnante. Obrigado.
Mais uma vez o juiz foi obrigado a intervir sobre o falatório que se prosseguiu ao termino dos argumentos do advogado de defesa e seu martelo ressoou na sala do plenário. O advogado de acusação levantou pediu licença ao juiz, este lhe concedeu e com veemência nos argumentos vociferou.
_O amigo defensor quer que acreditemos que existam duas pessoas dentro de nós: uma que é agredida; e uma outra quem realmente agride. Uma pessoa que sonha e a outra que se realiza. Uma pessoa que é visível de corpo real, e uma outra pessoa da qual não enxergamos nem a cor dos seus cabelos. O amigo de trabalho e defensor quer que acreditemos, que se uma pessoa se queimar será a outra quem ira sofrer. Se uma pessoa for dura e resistente protegerá a outra oculta dentro de nós que é frágil e indefesa.
O advogado caminhou ate a tribuna dos jurados e fixando o olhar em um deles, concluiu, questionando.
_Como agora. Neste instante. Estou olhando para você ou supostamente para esta pessoa que existe dentro de você?
Olhou para um outro jurado desta vez uma mulher loira sentada na primeira fileira. Mais uma vez questionou.
_Eu estou falando e olhando para a senhorita ou para esta pessoa que o meu amigo de trabalho quer que acreditem existir dentro de você?
Enquanto voltava ao seu lugar reservado respirou profundamente, porem antes de sentar-se concluiu.
_Senhores e senhoras, jurados e senhor meritíssimo. Pergunto como leigo que sou deste profundo assunto: estamos aqui julgando substancialmente uma pessoa que exista ou algo que não possamos nunca aprisionar pelos seus atos? Obrigado.
Mais uma vez o juiz e seu martelo entraram em cena e mais uma vez conteve o murmúrio ecoante do plenário e filosofou
_O Amor pode ser duro como a pedra, quente como fogo, líquido como água, invisível como ar, o amor não pode ser aprisionado ou retido, transformado, porque não é conteúdo e conteúdo é substância, sendo que substâncias são matérias. O amor não é fraco nem forte, nem feio tão pouco bonito, porque ele simplesmente nos alimenta a alma. O amor é escravo da burrice racional de todo aquele, que se julga ser um ser humano. O ser humano é sensível como a poesia, e poesia é palavra, e palavra é literatura.
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